Como trabalhar a Produção de Texto?

 

Lápis

Por: Renata Santos

Algumas pessoas tem me perguntado sobre como tenho trabalhado redação com as crianças. Na verdade, trabalho da mesma forma com os três, mesmo minha filha tendo 10 anos e os gêmeos 13, logicamente fazendo a mais nova acompanhar o ritmo dos mais velhos (porque como poderão observar, ela dá conta).

No primeiro semestre do homeschooling deixei a escrita livre. Tínhamos dois horários na semana para a realização de uma composição de texto. Deixei-os escrever o que tinham vontade, livre de qualquer direcionamento de tema, tipo ou gênero textual. Eles se esbaldaram. O objetivo principal nessa fase foi de conquistar as crianças para se expressarem por meio da escrita, amarem redigir e valorizarem os livros que estavam lendo.

Por falar em livros, no semestre foram lidos vários e vários livros, grandes e pequenos, de prosa, poesia e contos, biografias, clássicos e não clássicos. Mas sempre de alta qualidade. Nada desses livros comerciais, de diálogos pobres com enredos repetitivos e repletos de ensinamentos duvidosos.

Nessa fase, “brincávamos” um pouco com os temas a serem abordados: cada um sugeria 3 temas em pequenos papeis que eram dobrados e sorteados no dia da redação; a inspiração vinha de alguma música clássica (Prokovief é ótimo para isso) ou de algum quadro. A imaginação foi o nosso limite, e de lá saíram excelentes textos. A leitura do texto para a família era um prazer que motivava a elaboração cuidadosa do texto. A correção era feita em conjunto comigo antes da leitura.

Então fui observando, que na medida em que liam um livro, pediam para escrever algo semelhante: poesias, fábulas, narrativas descritivas… e todos eles decidiram se aventurar em escrever um livro ( nas horas vagas!), como um hobbie. Claramente o objetivo foi alcançado.

No segundo semestre, após conquistar o coração de meus filhos para a leitura e escrita, decidi formalizar o ensino da redação para potencializar o talento deles. Depois de muito procurar ( não encontrei um manual de redação apropriado para crianças maduras na linguagem em português), achei um livro pequeno, mas com o conteúdo que estava procurando. Chama-se Gêneros Textuais: práticas de Leitura Escrita e Análise Linguística, de Vanilda Salton Koche e Adiane Fogali Marinello. Embora o nome possa assustar, o livro é constituído por apenas 9 capítulos (Introdução, Gêneros textuais e tipologias textuais, Apólogo, Crônica, Conto Popular, Lenda, Mito, Artigo de opinião, Artigo de Divulgação Científica). Cada capítulo possui uma explicação teórica (leio e repasso para eles os principais pontos) e exercícios com textos clássicos de nossa literatura principalmente.

Então, temos trabalhado assim: estudamos a parte teórica, realizamos os exercícios e redigimos textos do assunto que abordamos. Tem funcionado bem. Associados a tudo isso, o hábito forte da leitura diária.

Então, para terem uma ideia de um texto narrativo descritivo elaborado por uma menina de 10 anos, coloco aqui o primeiro capítulo do livro (sem título ainda) que ela está escrevendo. Fiz algumas correções de pontuação e acentuação apenas (sempre ensinando algo, por exemplo a não separar o sujeito do predicado com a vírgula, ou ensinando o que é crase). Os adjetivos tem sido adquiridos das leituras e ela tem se deliciado no dicionário de sinônimos! O nome da cidade vem da associação de duas palavras em latim. A diagramação da página, ela mesmo elaborou baseada na observação dos livros que tem lido ( uma pena que o blog não consiga colar com as fontes que ela escolheu, nem respeitar os parágrafos…)

 

                        A descoberta entre as macieiras     

 

. Capítulo: 1

Era um dia escuro, em que as gotas de orvalho repousavam sobre as plantas. Alicia estava sentada sobre uma cadeira feita de palha, com madeira rustica. Seus olhos tinham cor de mel e seus lábios eram vermelhos como a mais fina rosa, seus cabelos balançavam em seu rosto quando a brisa soprava. Seus olhos estavam fixados em sua irmã que buscava alimento. E constantemente gritava o nome da irmã:

– Lítza! Volte para casa!

Lítza era uma jovem cuja beleza era parecida com a da irmã. Um arco e flecha fino feito de teixo se encontrava em suas mãos, e em suas costas estava uma aljava feita de couro que guardava cinco delgadas flechas que poderiam passar pelas costelas de qualquer um. Estava fora de casa pois caçava. Lítza ergueu seu arco e esticou a corda até a boca, estava mirando em uma corça não muito grande, da qual aperna dianteira esquerda estava machucada. Ao agachar na grama baixa, segurou a respiração. Os gritos de sua irmã a perturbavam, mas não perdia a concentração. Quando soltou a corda, sua flecha voou rapidamente, até acertar o animal. Terminando de esfolar a corça, colocou-a dentro de um saco surrado marrom. Chamando sua irmã para ajudar a carregar o saco, Alicia perguntou:

-Posso pegar umas maçãs no pomar da floresta? Talvez possamos vendê-las em Linmaque.

Alícia apenas queria fazer um agrado a irmã.

-Tudo bem querida, eu te agradeço, mas primeiramente ajude-me a levar a corça para casa, sim?

Assim elas arrastaram o saco sobre a fina e curta relva no morro em que sua casa ficava. Alicia pegou um lírio, cor de carmesim amarelado, e o cheirou. Com isso ela lembrou-se de seus pais, fazendo com que escorresse uma solitária lágrima dos seus belos olhos. Lítza olhou para sua irmãzinha, já sabendo o motivo das amargas lágrimas.

Quando elas chegaram, Alicia pegou delicadamente uma cesta de palha forrada com um pano branco. Dando um caloroso abraço na irmã, se dispôs a sair alegre pela porta de trás da casa. Alícia não passava de uma figura feliz no meio de uma terna floresta escura e bucólica. Pulando sobre as águas de um pequeno riacho ela avistou a macieira mais próxima e foi em sua direção. Com os cabelos em seu rosto por causa da ventania começou a colher maçãs de modo muito rápido. Ela avistou um brilho, cor de azul cobalto, que ofuscava seus alegres olhos. Curiosa abriu uma passagem entre as plantas com suas pequeninas mãos. Ao encostar seu rostinho entre as plantas avistou um utensilio que parecia ser um colar. Alícia admirada pelo magnífico objeto soltou um leve gritinho de seus lábios. Mais curiosa ainda, ela resolveu averiguar o objeto. Apurou os olhos para enxergar melhor. Conseguiu avistar pequenas letras escritas em uma língua muito estranha.

-O que e isto?  – Pensou ela.

Seus olhos estavam ainda focados no objeto

-Para que serve isto? E que letras escritas são essas? Não consigo entendê-las, parecem estar escritas em outra língua… talvez Lítza consiga ler – afirmou.

-Bom, não tenho tempo para pensar nisso, tenho que voltar para casa.

Pegando a cesta com as maçãs tão vermelhas quanto seus lábios, saiu a correr pelo mesmo caminho que viera.

Quando abriu a porta viu que Lítza a esperava sentada na cadeira de balanço, organizando seus novelos de lã brancos em sua caixa de costura.

-Alicia, é você querida?

-Sim…eu mesma. – Falou Alicia enquanto colocava a cesta na bancada de madeira.

-Você correu? Consigo ouvir sua respiração daqui.

Ao ouvir o comentário da irmã, Alícia diminuiu o ritmo de sua respiração e se sentou na pequena poltrona branca à sua esquerda.

-Parece estar pensativa… você viu alguma coisa…diferente? Perguntou Lítza com um certo interesse.

-Sim. – Disse Alicia com os olhos no teto de madeira.

-Interessante… o que viu exatamente? Exprimiu ela sem muita hesitação.

Alicia tirou do bolso de seu vestidinho surrado o objeto azul cuja aparência era parecida com a de um colar.

-A.…Alicia onde achou isso?-Perguntou Lítza com o dedo indicador apontado para o objeto azul.

-Atrás da macieira, entre os arbustos. Gostaria que me falasse… o que significam estas palavras.

Alicia deu o colar a Lítza.

-Bem, enquanto tento ler que tal você lavar as mãos? Daqui a pouco servirei o jantar.

-Tudo bem. – Disse Alicia com sua doce voz.

Enquanto se encaminhava até a cozinha, deixava marcas de pezinhos pretos por toda a casa. Quando enxugou as mãos conseguiu ouvir Lítza resmungando baixinho que não conseguia entender as palavras. Voltando para a sala, Alicia perguntou o significado das palavras com um certo desdém, já sabendo a resposta.

-Desculpe querida, não entendi nem uma palavra. Vamos jantar?

O chamado pela comida gritou mais alto fazendo com que Alicia cantasse alegremente.

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6 comentários sobre “Como trabalhar a Produção de Texto?

  1. Excelente Renata e César! Obrigada por compartilhar suas experiências de educação domiciliar. Eu adoraria ler livros da autoria dos seus filhos, quem sabe eles possam vir a ser publicados? Aqui vai o incentivo de toda nossa família 😀
    Será que vocês poderiam fazer as sugestões dos livros de boa qualidade citados acima (contos, poesias, fábulas, briografias etc.)? Estamos no início da nossa jornada no homeschooling buscando principalmente literatura para ampliar nossa biblioteca particular 🙂 Um grande abraço

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigada Raquel pelas palavras de incentivo! Estou pensando em fazer um post com algumas indicações de livros. As pessoas tem nos perguntado muito. Na verdade não há mistério (rs), apenas tenho cuidado de selecionar bons temas com um português mais erudito. Mas estou me comprometendo a colocar brevemente algumas indicações, ok? Um abraço grande para a sua família.

      Curtido por 1 pessoa

  2. Obrigado por partilhar essa experiência e as dicas.
    E mais uma boa escritora já nasceu. Fico impressionado com a riqueza de detalhes e com a imaginação.
    Continuem firmes!

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  3. Eu vim para pedir indicações de livros, e vi que tem outras pessoas pedindo. Tenho um filho de 3 e uma de 12, e para ela estou um pouco perdida em relação a bons livros. Infelizmente minha experiência de leitura não foi da melhores, então terei que aprender junto com ela. Obrigada pelo blog, tem me ajudado muito.

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